Em provas de endurance realizadas sob altas temperaturas, manter a oferta de carboidratos é fundamental para sustentar a disponibilidade de energia. Entretanto, o estresse térmico pode alterar a função gastrointestinal, dificultando a tolerância à estratégia nutricional e potencialmente comprometendo o aproveitamento dos nutrientes ingeridos.
Entender essa relação ajuda a ajustar a ingestão de carboidratos às condições da prova, sem perder de vista a hidratação, a intensidade do exercício e a individualidade do atleta.
Como o calor afeta o trato gastrointestinal?
Durante o exercício, o organismo precisa distribuir o fluxo sanguíneo entre os músculos ativos, a pele e os órgãos envolvidos na manutenção das funções vitais. Em ambientes quentes, a necessidade de dissipar calor aumenta, elevando a demanda circulatória para a pele. Quando esse cenário se combina com o esforço físico, pode ocorrer uma redução ainda maior do fluxo sanguíneo esplâncnico, que abastece os órgãos gastrointestinais.
Essa redução pode prejudicar a integridade e o funcionamento do trato gastrointestinal, especialmente em exercícios prolongados e intensos. Como consequência, podem surgir náuseas, sensação de estômago cheio, cólicas e diarreia, sintomas capazes de limitar a ingestão de carboidratos durante a atividade.
Um estudo publicado em 2022 no Journal of Science and Medicine in Sport, com corredores submetidos a duas horas de exercício em diferentes temperaturas, investigou os efeitos do estresse térmico sobre a função gastrointestinal e os sintomas digestivos. Os resultados reforçam a importância de considerar o ambiente como um fator que pode modificar a resposta gastrointestinal ao exercício.
O calor reduz diretamente a absorção de carboidratos?
A relação exige uma distinção importante: apresentar desconforto gastrointestinal não significa, necessariamente, que a absorção de carboidratos foi reduzida. O esvaziamento gástrico, o transporte intestinal e a absorção dos nutrientes são processos diferentes, embora interligados.
A absorção de carboidratos depende de transportadores específicos na parede intestinal. A glicose utiliza principalmente o transportador SGLT1, enquanto a frutose utiliza o GLUT5. Por isso, combinar fontes de carboidratos que utilizam diferentes vias de transporte pode favorecer uma maior absorção total quando a oferta de glicose isoladamente se aproxima da capacidade de transporte intestinal.
No calor, porém, o estresse térmico pode comprometer a função gastrointestinal e aumentar a ocorrência de sintomas que dificultam a ingestão e a tolerância nutricional. Embora esse mecanismo seja fisiologicamente plausível, ainda não há evidências suficientes para afirmar que o calor reduz diretamente a absorção de carboidratos em todos os atletas ou estabelecer uma redução universal da capacidade absortiva.
A estratégia nutricional precisa mudar em dias quentes?
A resposta depende da duração e da intensidade do exercício, das condições ambientais e da tolerância individual. A recomendação não é reduzir automaticamente a ingestão de carboidratos quando a temperatura aumenta, mas avaliar se a estratégia planejada continua viável nessas condições.
A concentração da solução, o volume ingerido de uma só vez e a combinação de diferentes fontes de carboidratos podem influenciar a tolerância gastrointestinal. Uma estratégia que funciona bem em condições amenas pode exigir ajustes quando o atleta enfrenta calor intenso, principalmente se houver histórico de desconforto digestivo.
Também é importante evitar concentrar grandes quantidades de carboidratos em poucas ingestões. Distribuir a oferta ao longo da atividade, respeitando a meta individual em gramas por hora, pode facilitar a tolerância. A hidratação deve ser planejada de acordo com as condições da prova e as perdas individuais de líquidos, sem assumir que ingerir mais água, isoladamente, resolverá os sintomas gastrointestinais.
Treinar o intestino também faz parte da preparação
A tolerância aos carboidratos durante o exercício pode ser desenvolvida com exposição repetida à estratégia nutricional. Esse processo, conhecido como gut training, consiste em praticar a ingestão planejada durante os treinos, aproximando as condições de alimentação daquelas esperadas na competição.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista Sports Medicine identificou evidências de que protocolos repetidos de ingestão de carboidratos podem reduzir o desconforto gastrointestinal e, em alguns estudos, melhorar a absorção dos nutrientes. Os resultados, entretanto, variam entre os protocolos e os atletas.
Para provas em ambientes quentes, esse treinamento deve considerar não apenas a quantidade de carboidratos, mas também os produtos utilizados, a frequência de ingestão, a intensidade do exercício e as condições térmicas. Sempre que possível, os ajustes devem ser testados em treinos representativos, evitando mudanças importantes no dia da competição.
Conclusão
O calor pode aumentar o estresse gastrointestinal durante o exercício e dificultar a manutenção de uma estratégia adequada de carboidratos. Entretanto, é importante diferenciar a redução da tolerância digestiva de uma diminuição comprovada da absorção intestinal, cuja relação direta com a temperatura ainda precisa ser mais bem investigada.
Para atletas de endurance, o planejamento nutricional deve integrar oferta de carboidratos, hidratação e treinamento gastrointestinal. A melhor estratégia é aquela que atende à demanda energética da prova e pode ser mantida com boa tolerância nas condições reais de competição.