Os géis energéticos são uma das estratégias mais utilizadas por atletas de endurance para manter a disponibilidade de carboidratos durante treinos e provas. No entanto, muitos atletas relatam que, principalmente na parte final da prova, começam a sentir enjoo ou dificuldade para continuar consumindo gel.
Esse fenômeno é relativamente comum e pode ter diferentes explicações fisiológicas, sensoriais e estratégicas.
Fadiga gastrointestinal durante exercícios prolongados
Durante exercícios de longa duração, o fluxo sanguíneo é direcionado principalmente para os músculos ativos. Como consequência, ocorre uma redução do fluxo sanguíneo para o sistema gastrointestinal.
Essa mudança pode diminuir a eficiência da digestão e da absorção de nutrientes, aumentando a probabilidade de desconfortos como náusea, sensação de estômago cheio, refluxo e dificuldade para ingerir alimentos ou suplementos.
Quanto mais longa e intensa a prova, maior tende a ser esse estresse gastrointestinal.
Sobrecarga de carboidratos no intestino
Outro fator importante é a quantidade de carboidrato ingerida ao longo da prova. Quando a ingestão excede a capacidade de absorção intestinal, parte desses carboidratos permanece no trato gastrointestinal, aumentando a osmolaridade e favorecendo sintomas gastrointestinais.
Estratégias que combinam diferentes tipos de carboidrato, como maltodextrina junto com frutose, ajudam a aumentar a taxa de absorção intestinal porque utilizam transportadores diferentes no intestino.
Essa abordagem permite maior disponibilidade energética com menor risco de desconforto gastrointestinal.
Fadiga sensorial e saturação do sabor doce
Além dos fatores fisiológicos, existe também um componente sensorial. Durante provas longas, o atleta pode experimentar uma saturação do sabor.
Esse fenômeno ocorre porque a exposição repetida ao mesmo sabor reduz a palatabilidade do alimento. Com o tempo, o gel pode parecer difícil de consumir.
Por esse motivo, alguns atletas preferem alternar sabores ou incluir outras formas de ingestão de carboidrato durante a prova.
Desidratação e ingestão inadequada de líquidos
O consumo de gel sem ingestão adequada de água pode aumentar o risco de desconforto gastrointestinal.
Os géis possuem alta concentração de carboidratos. Quando ingeridos sem líquidos suficientes, podem aumentar a concentração de solutos no estômago, retardando o esvaziamento gástrico e aumentando a chance de náusea.
Estratégias que ajudam a reduzir o enjoo
Algumas estratégias podem ajudar a diminuir a chance de enjoo durante a prova:
• testar a estratégia nutricional durante os treinos • distribuir a ingestão de carboidratos ao longo da prova • utilizar múltiplas fontes de carboidrato • ingerir gel junto com água • variar sabores quando possível
Outra abordagem importante é o treinamento intestinal, conhecido como gut training, que consiste em adaptar o sistema gastrointestinal para tolerar melhor a ingestão de carboidratos durante o exercício.
Conclusão
O enjoo ao consumir gel no final da prova é um fenômeno multifatorial. Ele pode estar relacionado à fadiga gastrointestinal, à quantidade de carboidratos ingerida, à desidratação ou à saturação do sabor doce.
Por isso, a estratégia nutricional deve sempre ser testada e ajustada durante os treinos. A individualização da ingestão de carboidratos é fundamental para garantir disponibilidade energética sem comprometer o conforto gastrointestinal e o desempenho esportivo.
Referência:
Martinez IG, Mika AS, Biesiekierski JR, Costa RJS. Gut training and feeding challenges during endurance exercise, effects on gastrointestinal symptoms and nutrient tolerance. Sports Medicine. 2023. https://doi.org/10.1007/s40279-023-01841-0