A estratégia nutricional no endurance precisa acompanhar as exigências de cada competição. Duração, intensidade, condições ambientais e características do percurso modificam a demanda energética e as necessidades de hidratação. Por isso, uma estratégia eficiente em uma prova pode não oferecer o mesmo resultado em outra, mesmo para o mesmo atleta.
A duração e a intensidade mudam a demanda energética
Quanto maior a duração do exercício, maior tende a ser a importância do fornecimento de carboidratos durante a atividade para manter a disponibilidade energética e sustentar o desempenho. Entretanto, a quantidade necessária não depende apenas do tempo total de prova, mas também da intensidade em que o atleta compete.
Em uma prova curta e intensa, a demanda energética é elevada, mas o tempo disponível para ingestão pode ser limitado. Já em uma maratona ou em um triatlo de longa distância, a oferta contínua de carboidratos ganha importância para sustentar o esforço ao longo das horas.
Isso não significa que provas mais longas sempre exijam a maior ingestão possível. A estratégia deve considerar a demanda metabólica, a tolerância gastrointestinal e a capacidade individual de absorver e utilizar os nutrientes durante o exercício.
O percurso também influencia a estratégia
Duas provas com duração semelhante podem apresentar exigências bastante diferentes. Uma competição predominantemente plana pode permitir uma intensidade relativamente constante, enquanto um percurso com subidas, descidas e mudanças frequentes de ritmo exige ajustes na distribuição do esforço e na ingestão nutricional.
Em provas de ciclismo, por exemplo, os momentos de menor exigência podem oferecer oportunidades para consumir carboidratos e líquidos. Na corrida, o impacto mecânico e a dificuldade de ingerir alimentos durante o movimento podem tornar a estratégia mais desafiadora.
Por isso, o planejamento deve considerar não apenas quanto o atleta precisa consumir, mas também quando e de que forma essa ingestão será viável durante a competição.
Temperatura e hidratação modificam as necessidades
As condições ambientais são outro fator determinante. Em ambientes quentes, o aumento da demanda de dissipação de calor pode elevar a frequência cardíaca e a percepção de esforço, além de aumentar as perdas de líquidos e eletrólitos pelo suor.
Nesse cenário, uma estratégia de hidratação adequada para uma prova em clima ameno pode ser insuficiente em uma competição sob calor intenso. Da mesma forma, a reposição de sódio precisa considerar as características individuais de sudorese, a duração do exercício e as condições ambientais.
A revisão sistemática com metanálise publicada por Pellicer-Caller e colaboradores, em 2023, identificou efeitos das estratégias nutricionais, da hidratação e das condições ambientais sobre diferentes indicadores de fadiga em exercícios de endurance. Os resultados reforçam que o planejamento nutricional precisa considerar o contexto em que a atividade acontece.
A tolerância gastrointestinal também limita a estratégia
Uma recomendação nutricional pode ser adequada do ponto de vista fisiológico, mas difícil de executar na prática. Desconforto abdominal, náuseas e sensação de estômago cheio podem comprometer a ingestão e prejudicar a continuidade do esforço.
A tolerância gastrointestinal depende de fatores como intensidade do exercício, quantidade e composição dos carboidratos ingeridos, concentração da bebida, volume de líquidos e histórico de treinamento nutricional.
Por isso, estratégias com maior oferta de carboidratos devem ser desenvolvidas progressivamente nos treinos. Essa prática, conhecida como gut training, busca melhorar a capacidade do atleta de tolerar a ingestão planejada durante o exercício.
Também é importante testar os produtos, os horários de consumo e a combinação entre líquidos e alimentos antes da competição. A prova não deve ser o primeiro momento em que o atleta experimenta uma estratégia nutricional.
A individualização vai além do tipo de prova
Mesmo quando dois atletas participam da mesma competição, suas necessidades podem ser diferentes. Ritmo esperado, duração estimada, experiência, tolerância gastrointestinal, taxa de sudorese e histórico de respostas a estratégias anteriores influenciam o planejamento.
Além disso, a estratégia deve estar alinhada ao objetivo competitivo. Um atleta que busca completar uma prova pode apresentar uma demanda diferente daquela de quem pretende sustentar uma intensidade elevada até a linha de chegada.
O planejamento nutricional precisa integrar essas